Como álbum comprado por R$ 20 em feira de Porto Alegre levou fotógrafa a buscar família para devolver fotos do século XX

  • 20/09/2026
(Foto: Reprodução)
Como álbum de feira levou fotógrafa a buscar família para devolver fotos do século XX Fotografias guardam mais do que rostos. Guardam datas, lugares, afetos e fragmentos de vidas inteiras. Além disso, toda fotografia faz uma promessa silenciosa: a de impedir que um instante desapareça por completo. Quando a fotógrafa Mayara Stuelp, 22 anos, encontrou um antigo álbum sendo vendido por R$ 20 em uma tradicional feira de artesanato, artes plásticas e antiguidades na Região Central de Porto Alegre, não imaginava que as 33 imagens em preto e branco que vinham junto da compra a levariam a uma investigação que levaria décadas. 📲 Acesse o canal do g1 RS no WhatsApp A busca que levou duas semanas terminou com a localização dos familiares de um casal retratado nas fotografias e a devolução de um acervo capaz de resgatar lembranças que poderiam ter se perdido para sempre. O achado Álbum comprado pela fotógrafa Mayara Stuelp, em feira de Porto Alegre Divulgação/ Mayara Stuelp Em um domingo de julho, durante um passeio pelo Brique da Redenção, Mayara encontrou entre os antiquários um álbum grande, de couro e a preço acessível: custava R$ 20. As imagens contavam a história de uma família. Mais especificamente, de um casal: ali estavam Eunice e João. Sem saber, Mayara acabava de embarcar em uma investigação que mobilizaria historiadores, curiosos, genealogistas amadores e milhares de pessoas nas redes sociais até resultar na devolução de um pedaço da história daquela família. Ao seguir as pistas deixadas nas fotografias, ela reconstruiu parte da trajetória deles, um casal que viveu em Porto Alegre ao longo do século passado. "Como aquelas fotos foram parar ali?" foi a pergunta que deu início a tudo. Um álbum e uma obsessão crescente Aos 22 anos, Mayara trabalha com fotografia documental. Desde sempre, diz ter fascínio por memórias, registros e histórias de vida. Quando folheou rapidamente o álbum antes da compra, percebeu que havia algo diferente. As fotografias eram bonitas. Bem conservadas. Mostravam momentos espontâneos, sem poses rígidas. Havia uma familiaridade estética entre aquelas imagens e o trabalho que ela produz. "Eu me identificava com aquelas fotografias. Parecia que as pessoas não estavam posando. Era algo muito próximo do que eu gosto de fazer", conta. O plano inicial era restaurar o álbum e utilizá-lo para guardar suas próprias fotografias impressas. Mas as imagens que encontrou dentro dele começaram a provocar perguntas. Álbum comprado pela fotógrafa Mayara Stuelp, em feira de Porto Alegre Divulgação/ Mayara Stuelp Atrás de algumas fotos havia nomes, datas, endereços e dedicatórias. Eram pistas aparentemente pequenas, mas suficientes para despertar a curiosidade de Mayara. Foi a partir desses fragmentos de informação que ela começou a reconstruir a trajetória do casal, pesquisando registros antigos e buscando familiares. "Eu ficava lembrando que as fotos estavam ali e ia pesquisar de novo. Aos poucos fui ficando obcecada pela história", revela. No entanto, o que mais a intrigava não era descobrir quem eram Eunice e João. Era entender como toda aquela memória havia terminado à venda entre objetos usados. "Em todos os antiquários de Porto Alegre a gente vê centenas de fotografias e álbuns sendo vendidos. Mas ninguém sabe exatamente o que aconteceu para aquelas memórias irem parar lá", comenta. Repercussão nas redes sociais ajudou Com poucas pistas em mãos, Mayara e o namorado iniciaram uma espécie de quebra-cabeça genealógico. Percebendo o potencial da história, a fotógrafa decidiu publicar um vídeo nas redes sociais. Foi quando centenas de mensagens começaram a chegar. Algumas pessoas apenas queriam saber o final daquela história, outras resolveram participar da busca. Houve quem pesquisasse arquivos históricos, documentos antigos e acervos de jornais. E uma ajuda decisiva veio de Curitiba: durante noites seguidas, uma pesquisadora quis ajudar e mergulhou em acervos e documentos históricos, enviando informações que ajudaram a conectar as peças daquele quebra-cabeça. "O vídeo virou uma pesquisa coletiva", resume Mayara. Quem eram Eunice e João Álbum comprado pela fotógrafa Mayara Stuelp, em feira de Porto Alegre, tinha fotos de Eunice e João Divulgação/ Mayara Stuelp O álbum carregava registros de diferentes fases da vida do casal. Fotos de eventos sociais, viagens, retratos familiares e cenas do cotidiano. Inclusive, uma imagem de infância revelou uma informação crucial: Eunice havia nascido em 1922. Outra mostrava que ela tocava piano. A busca pela identidade de quem estava nas fotos revelou que Eunice tinha uma forte ligação com o Instituto de Educação de Porto Alegre. Aos 17 anos, estudava na instituição. Anos depois, tornou-se professora de piano e canto no mesmo local. Também ajudou a fundar uma associação de ex-alunas do Instituto de Educação. Enquanto isso, a história de João também começava a emergir: a certidão de casamento do casal, datada de 24 de setembro de 1946, revelou que o nome original de João Batista era Giambattista. No álbum, também havia duas fotografias com dedicatórias escritas em italiano. Segundo a investigação feita por Mayara, João chegou ainda criança ao Brasil e, ao longo da vida, passou a utilizar a versão brasileira do nome. A descoberta mais importante Mesmo com tantas informações, faltava o principal: alguém da família estaria vivo? Durante as buscas, surgiram nomes de netas do casal. Em agosto, Mayara encontrou um perfil nas redes sociais. "Fiquei na dúvida se eu deveria ou não mandar mensagem porque poderia ser estranho. Eu não tinha certeza se era de fato elas", relembra. Depois de enviar uma mensagem para uma das netas, a fotógrafa não recebeu resposta e chegou a acreditar que a busca terminaria ali. Dias depois, após a repercussão do vídeo publicado na internet, a neta reconheceu os avós nas fotografias e respondeu Mayara. As duas passaram a conversar por mensagens. A neta enviou fotografias dos avós já idosos e contou detalhes da família. Foi quando veio a resposta do porquê o álbum estaria no Centro de Porto Alegre: Mayara conta que Eunice morreu há cerca de dois anos e, provavelmente, o álbum se perdeu quando o apartamento foi vendido. O retorno das memórias Na última semana, Mayara enviou as fotografias pelos Correios para Santa Catarina, onde a neta mora. Junto delas, foi toda a documentação reunida durante a investigação: certidões, registros e peças da história que a própria família desconhecia. Poucos dias depois, recebeu a confirmação de que o material havia chegado. "A parte mais legal nisso tudo foi perceber uma coisa muito bonita: como histórias podem aproximar as pessoas", resume Mayara. Agora vazio, o álbum original ficou com a fotógrafa. Ele será restaurado e ganhará uma nova história com fotografias da própria Mayara. VÍDEOS: Tudo sobre o RS

FONTE: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/09/20/como-album-comprado-por-r-20-em-feira-de-porto-alegre-levou-fotografa-a-buscar-familia-para-devolver-fotos-do-seculo-xx.ghtml


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